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‘A Queda do Céu’ faz do cinema um encontro entre mundos e um alerta sobre o futuro da humanidade

  • Foto do escritor: Vanessa Araújo
    Vanessa Araújo
  • 22 de jul.
  • 3 min de leitura

Há filmes que registram uma realidade e há aqueles que desafiam a maneira como enxergamos o mundo. “A Queda do Céu”, dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, pertence à segunda categoria. Inspirado no testemunho do xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa, o documentário não se limita a denunciar a violência sofrida pelos povos indígenas. Sua força está em apresentar ao espectador uma outra forma de compreender a existência, em que floresta, seres humanos, espíritos e memória formam um mesmo sistema de equilíbrio.


O ponto de partida é o Reahu, um dos mais importantes rituais do povo Yanomami, que representa o momento de reencontro entre comunidades, de despedida dos mortos, de fortalecimento dos vínculos e de renovação da vida coletiva. A câmera acompanha esse processo sem pressa; em vez de explicar tudo ao espectador, prefere observar. O silêncio, os sons da floresta, os cantos e os movimentos do ritual ocupam espaço suficiente para que o público perceba que há ali um conhecimento que não cabe apenas em palavras.


Os diretores evitam transformar a cultura Yanomami em curiosidade antropológica ou espetáculo exótico. O filme concede protagonismo à voz de Davi Kopenawa, reconhecido internacionalmente como uma das principais lideranças indígenas do Brasil. É a partir de seu olhar que somos apresentados aos xapiri, os espíritos que sustentam o mundo, e à ideia de que o céu permanece de pé porque existe uma relação de respeito entre os seres humanos, a natureza e o plano espiritual.


Entre os elementos mais contundentes do filme está a crítica ao chamado “povo da mercadoria”, expressão utilizada para definir uma sociedade orientada pelo consumo, exploração dos recursos naturais e ideia de crescimento ilimitado. É a crítica a um modelo econômico que transforma rios, florestas e vidas humanas em recursos para exploração. O garimpo ilegal surge como a expressão mais evidente dessa lógica, levando destruição ambiental, contaminação dos rios por mercúrio, violência e doenças para dentro dos territórios indígenas.


O documentário também aborda as epidemias conhecidas pelos Yanomami como xawara, enfermidades trazidas por pessoas de fora que historicamente provocaram mortes em larga escala entre os povos originários. A lembrança dessas tragédias ganha ainda mais significado diante das crises sanitárias vividas nas últimas décadas, reforçando a vulnerabilidade das comunidades indígenas diante da invasão constante de seus territórios.


Do ponto de vista cinematográfico, “A Queda do Céu” se destaca pela construção visual. A fotografia explora a grandiosidade da floresta amazônica e a natureza aparece como personagem viva, não aepnas cenário. A montagem valoriza o tempo dos acontecimentos e rompe com a necessidade de oferecer respostas rápidas ao espectador. É essa desaceleração que permite uma experiência de contemplação rara no cinema contemporâneo.


A narrativa demonstra sensibilidade ao permitir que os próprios Yanomanis conduzam a narrativa. Essa escolha fortalece o caráter político do documentário, que rompe com uma longa tradição de obras em que os povos indígenas aparecem apenas como objeto de observação. Aqui, eles são sujeitos da própria história, apresentando suas preocupações, seus conhecimentos e sua visão sobre o presente e o futuro.


Mais do que um documentário ambiental ou etnográfico, “A Queda do Céu” é um convite à escuta. Seu mérito é lembrar que existem outras formas de compreender o mundo além da lógica da produção, do consumo e da exploração. Ao apresentar a cosmologia Yanomami sem reduzi-la a explicações simplificadas, o filme amplia o debate sobre a preservação da Amazônia, os direitos dos povos originários e a necessidade de rever a relação da humanidade com a natureza.


Ao final da sessão, fica a impressão de que o título do filme não diz respeito apenas ao destino dos indígenas. A queda do céu, na visão apresentada por Davi Kopenawa, torna-se metáfora para um planeta que insiste em ignorar os limites impostos pela natureza. Na cosmologia Yanomami, o termo representa o colapso provocado quando a floresta é destruída e os conhecimentos ancestrais deixam de ser respeitados. Assim, o filme estabelece um diálogo direto com questões extremamente atuais, como o avanço do garimpo ilegal, o desmatamento e as mudanças climáticas. Ao invés de recorrer a estatísticas ou discursos técnicos,a produção ultrapassa fronteiras culturais e transforma uma narrativa profundamente indígena em reflexão sobre o futuro comum da humanidade.


Serviço


A Queda do Céu será exibido no dia 23 de julho, às 18h30, no Conservatório de Música Lorenzo Fernandez, dentro da programação da Mostra Grande Otelo, em Montes Claros. A sessão é gratuita e integra a iniciativa de democratização do acesso ao cinema brasileiro promovida pela mostra.

 
 
 

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