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Cinema Comentado exibe filme nacional pré-modernista de R$ 3 milhões

“Desinteressado de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma ideia fixa, os grandes estudiosos, os sábios, e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingênua, mais inocente que as donzelas das poesias de outras épocas.” Página 126 do livro “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto (1881-1922), edição bilíngue em português e inglês, 1ª edição, Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cidade Viva, 2011
“No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. Como em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda gente, de várias condições, nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos.” Páginas 148 e 150 do livro “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto (1881-1922), edição bilíngue em português inglês, 1ª edição, Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cidade Viva, 2011
“O Policarpo não quer o jeitinho brasileiro, ele quer a ética mesmo”, ator Paulo José
“Sei que a fé que tenho no cinema nacional é ‘policarpiana’. Mas realmente acredito que posso atingir o coração de muitas pessoas”, cineasta Paulo Thiago

Lançado em 1998, dirigido por Paulo Thiago e baseado na obra “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” (1915), do escritor carioca negro pré-modernista Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), a comédia “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil” será exibida gratuitamente na próxima sexta-feira (22/11), às 19h, na sala de audiovisual do Centro Cultural Hermes de Paula, em Montes Claros.

Policarpo Quaresma pode ser considerado a biografia branca de Lima Barreto. O escritor nasceu em 13 de maio de 1881, no Bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro do século XIX, cidade constituída por uma burguesia assediada pelos modismos franceses. Ao lado do seu pai João Henriques, Lima Barreto viu a Abolição da Escravatura em 13 de maio de 1888, mesmo que a Lei Áurea assinada pela Princesa Isabel tenha sido gestada desde 1831 e 1850 com o fim do tráfico negreiro.

Barreto viu também sua mãe, a professora primária Amália Augusta, morrer em 23 de dezembro de 1887, a dois dias do Natal. Lima Barreto costumava ter surtos psicóticos próximos da festa natalina. Em 15 de novembro de 1889, os militares com o apoio da maçonaria dão o golpe que faltava na monarquia: proclamam a República. João Henriques perde o emprego de tipógrafo da Imprensa Nacional conseguido graças à amizade que nutria com o Visconde de Ouro Preto.

Com o fim da monarquia, João Henriques fica desempregado e o Visconde de Ouro Preto vai para o exílio. O pai de Lima Barreto arranja uma ocupação de escriturário na Colônia dos Alienados, na Ilha do Governador. Lá, enlouquece. Afilhado do Visconde de Ouro Preto, Lima Barreto foi matriculado no Colégio Pedro II onde tentou estudar engenharia. Único negro da classe, sentia as diferenças sociais na pele. Com a enfermidade do pai e a morte da mãe, Barreto é forçado a trabalhar. Consegue um emprego de amanuense no Ministério de Guerra, onde não disfarça o tédio do serviço, mas o salário compensava para a criação dos dois irmãos e uma irmã, além do pai.

Em reportagem de Roni Lima para o Caderno “Ilustrada” do jornal “Folha de São Paulo” de 27 de julho de 1996, vivia-se o primeiro governo do presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que acabava de privatizar a Estação Ferroviária Central do Brasil (EFCB) e já comprava por R$ 200 mil parlamentares para aprovarem a reeleição. No século XIX, a corrupção da República Velha (1889-1930) não era muito diferente da de hoje. Policarpo Quaresma era um branco estudado, humilde, que via no verdadeiro nacionalismo (valorização da cultura indígena) a possibilidade de progresso do Brasil. Gostava de música e da poesia de Ricardo Coração dos Outros, com quem tinha aulas de violão.

O elenco do filme “Policarpo Quaresma: herói do Brasil” de quase 50 atores é formado por Paulo José, Giulia Gam, Cláudio Mamberti, Bete Coelho, Othon Bastos, José Lewgoy, Nelson Dantas, Aracy Balabanian, Jonas Bloch, Fernando Eiras e Ilya São Paulo. O roteiro é de Alcione Araújo. A direção musical do longa-metragem de duas horas e quatro minutos é de Sérgio Saraceni com canções de Carlos Lyra e Paulo César Pinheiro. A direção de fotografia é de Antônio Penido. A produção é de Gláucia Camargos. Quinze empresas patrocinaram esta obra de arte.

A Embrafilme tinha sido extinta pelo presidente Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás que sofreu impeachment em 1992. “A figura do produtor precisa ser valorizada. Um filme bem administrado facilita o trabalho”, afirma o cineasta Paulo Thiago, que também dirigiu “Jorge, um Brasileiro” e “Vagas para Moças de Fino Trato”. O filme “Policarpo Quaresma, herói do Brasil” foi indicado para o 13º Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata da Argentina. O longa-metragem custou R$ 3 milhões com locações em Juiz de Fora.

As sessões do Cinema Comentado Cineclube acontecem na sala de audiovisual do Centro Cultural Hermes de Paula, às sextas-feiras, sempre às 19h. A entrada é gratuita e, após a exibição, tem bate-papo com o público. O Cinema Comentado Cineclube tem o apoio da Secretaria Municipal de Cultura.

Fontes

Filme de Paulo Thiago é a primeira produção brasileira a participar do evento, que acontece em Mar del Plata; “Policarpo” é indicado para festival argentino, por Anna Lee > https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq221016.htm

“Policarpo Quaresma” questiona “jeitinho”, por Roni Lima > https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/7/27/ilustrada/8.html

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