Gabriel Mascaro e Fabio Meira exploram memória, envelhecimento e reinvenção em obras premiadas.
- Elpidio Rocha e Márcia Braga

- há 1 dia
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“O Último Azul” (2025), direção do pernambucano Gabriel Mascaro, mistura ficção científica, fantasia, distopia e humor, para falar de um tema cada vez mais discutido nas últimas décadas, que é a velhice. Principalmente num mundo em que se ataca cada vez mais os direitos sociais. O filme, que tem no elenco Rodrigo Santoro e Denise Weinberg, ganhou o Urso de Prata, em Berlim.

Teresa é uma mulher que já passou dos 70 anos de idade, mas continua produtiva, trabalha em um frigorífico, numa cidade da Amazônia, mora sozinha, mas a sociedade em que vive, num futuro distópico, decidiu que os idosos devem ir, forçosamente, para uma colônia mantida pelo governo. A ideia é de que os mais jovens devem produzir sem ter que se preocupar em cuidar dos mais velhos. Sabotar esse programa, ou seja, se esconder ou fugir dos agentes de segurança, é considerado crime grave.
O tema da velhice frequentemente volta ao cinema. Em 1983, “A Balada de Narayama”, do japonês Shôhei Imamura, mostrava a luta de Orin, uma idosa numa aldeia do século 19, que mantinha um ritual obrigatório para o combate à fome local: abandonar seus idosos para morrer no topo da montanha Narayama, assim que completassem 70 anos de idade. Antes de partir, Orin tem que encontrar uma mulher para o filho mais velho que, segundo a tradição, deveria levá-la até a montanha. Gabriel Mascaro foge de um final melancólico e, ao contrário de Orin, que aceita seu destino resignada, Teresa inicia uma espécie de odisseia particular que lhe garanta a vida e a liberdade.

Já “Mambembe” (2024), dirigido pelo goiano Fabio Meira, é um documentário que mistura realidade e ficção, imagens registradas em diferentes épocas e personagens que transitam entre a vida e a representação. É um filme que fala sobre o tempo, a memória e o acaso, acompanhando a retomada de um projeto iniciado em 2010 e interrompido por mais de uma década.
A história começa quando o diretor decide reencontrar três mulheres de um pequeno circo itinerante do interior de Pernambuco, escolhidas anos antes para participar de uma obra de ficção que nunca chegou a ser concluída. Ao revisitar as filmagens, Meira reconfigura o fracasso inicial em matéria-prima de um novo filme e revela como o tempo alterou essas personagens, suas trajetórias, seus sonhos e a própria relação com o cinema.
O circo mambembe, que percorre pequenas cidades do Nordeste, torna-se mais do que um cenário. Representa uma forma de arte marcada pela resistência e pela itinerância, constantemente ameaçada pelas dificuldades econômicas e pelas transformações culturais. Ao registrar a rotina dessas artistas, o documentário ajuda a preservar uma manifestação popular cada vez mais rara, aproximando o espectador de um universo normalmente distante das grandes produções brasileiras.
O diálogo entre documentário e ficção não é novidade no cinema. Em 1975, “Iracema, uma Transa Amazônica”, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, utilizou personagens ficcionais inseridos em situações reais para retratar a Amazônia durante a ditadura militar; em 2007, Eduardo Coutinho explorou as fronteiras entre encenação e realidade no genial “Jogo de Cena”. Fabio Meira segue esse caminho: além de registrar e documentar lugares e pessoas, “Mambembe” demonstra que o cinema é feito de espera, reencontros e da capacidade de reinventar a própria história.
Serviço
Mostra Grande Otelo
Local: Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernândez
24/07 (sexta-feira)
18h30 – O Último Azul
20h10 – Mambembe


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