Como "Manas" e "Velhos Bandidos" Enfrentam a Invisibilidade Social no Brasil
- Elpidio Rocha e Márcia Braga

- há 1 dia
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Primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Marianna Brennand, “Manas” (2024), é um drama ambientado na Ilha do Marajó, no Pará, que transforma uma história de amadurecimento em retrato consistente da violência de gênero e das desigualdades sociais na Amazônia brasileira. Evitando o sensacionalismo, o filme acompanha a trajetória de uma adolescente que passa a enxergar de forma crítica a realidade em que vive, revelando um cotidiano marcado pelo silêncio, pela exploração e pela naturalização dos abusos.

A trama acompanha Marcielle, conhecida como Tielle, jovem que vive às margens dos rios amazônicos e alimenta o desejo de construir um futuro diferente daquele reservado às mulheres de sua comunidade. À medida que compreende as estruturas de violência presentes dentro da própria família e do ambiente em que cresceu, a personagem inicia um processo de tomada de consciência.
O cinema brasileiro possui uma tradição de obras que utilizam histórias individuais para discutir questões coletivas. Em 1963, “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, transformou o drama de uma família sertaneja em reflexão sobre a exclusão social evidenciando o drama provocando pela seca. “Manas” dialoga com essa linhagem ao construir uma história em que a experiência da protagonista reflete problemas históricos ainda presentes no país; assim, o cinema se apresenta como instrumento de ação social oferecendo visibilidade a vozes que durante muito tempo permaneceram à margem.
No cenário da trama, os rios, as casas sobre palafitas e o isolamento geográfico ajudam a compreender as condições que marcam a vida das personagens. Ao mesmo tempo, o filme evidencia a riqueza cultural da região sem romantizá-la, apresentando uma realidade frequentemente invisibilizada pelo cinema brasileiro. Brennand constrói uma abordagem feminina privilegiando a relação da protagonista com a paisagem e estabelecendo a narrativa a partir dos olhares e sentimentos de Marcielle; a violência sexual e a vulnerabilidade social aparecem como problemas estruturais – e não como acontecimentos isolados.

“Velhos Bandidos” (2026), dirigido pelo cineasta Claudio Torres, é uma enérgica comédia de ação que mistura suspense, humor ácido e uma elaborada ironia sobre a passagem do tempo. É um filme que recusa a invisibilidade social na terceira idade, acompanhando a execução de um plano mirabolante que desafia as expectativas tradicionais da sociedade sobre o envelhecimento ativo.
A história começa quando um carismático casal de idosos, interpretado pelos veteranos Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, decide planejar um assalto a banco. Para executar o golpe perfeito, eles recrutam dois jovens criminosos atrapalhados, vividos por Bruna Marquezine e Vladimir Brichta, enquanto são perseguidos por um obstinado investigador, papel de Lázaro Ramos.
Ao estruturar a narrativa, Torres reconfigura o estereótipo da fragilidade senil em matéria-prima de pura astúcia. O assalto representa uma forma de rebeldia e protesto contra o esquecimento e a marginalização socioeconômica enfrentada pelos idosos na sociedade contemporânea. O contraste cômico entre a calma calculista dos protagonistas e a energia caótica de seus comparsas mais jovens, ajuda a desmistificar a velhice, aproximando o espectador de uma narrativa vibrante, elegante e cheia de vitalidade, que raramente ganha tamanho destaque nas telas brasileiras.
Em 2004, Claudio Torres explorou o cinismo urbano e o humor negro no aclamado “Redentor”. Em sua nova obra, o diretor segue um caminho maduro: além de entregar um entretenimento de ritmo ágil, “Velhos Bandidos” demonstra que o cinema de gênero no Brasil é capaz de se reinventar com inteligência, provando que a vivacidade e o direito de brilhar não possuem prazo de validade.
Serviço
27/07 (segunda-feira)
Museu Regional do Norte de Minas
18h30 – Manas
20h15 – Velhos Bandidos



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